A rede municipal de educação de Passo Fundo, no norte do RS, tem 740 estudantes diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no ano letivo de 2026. O número corresponde a média de um aluno com o diagnóstico por turma só nas escolas municipais da cidade.
Desse total, 206 estão matriculados na educação infantil e 534 frequentam o ensino fundamental municipal. Somado às redes estadual e privada de ensino, a Associação dos Amigos dos Autistas de Passo Fundo (Auma) estima 1.030 alunos com TEA em Passo Fundo.
Entre eles está Matteo de Oliveira Alfonso, 6 anos. Aluno da pré-escola na Emei Padre Zezinho, Matteo é autista nível 2 de suporte e enfrenta dificuldades na comunicação verbal. Ele vai à escola desde os dois anos e, no início de 2026, passou a enfrentar um desafio: a mãe, Bruna Radaelli de Oliveira, foi informada de que a escola não contaria com monitores suficientes para atender às necessidades do filho.
A ausência provocou mudanças na rotina do estudante e exigiu um processo de readaptação.
— Eu não esperava que o Matteo fosse reagir tanto a essa falta de monitor. Nas primeiras semanas ele já se desregulava toda tarde. Ele não conseguia ficar na escola, tinha crise na porta. Então nós voltamos a fazer aquele período, fica 1 hora em uma semana, 1 hora e meia na segunda semana — relata a mãe.
Busca por monitores
Com mais de mil estudantes com TEA distribuídos entre as diferentes redes de ensino do município, a demanda por profissionais especializados, monitores e estratégias de atendimento individualizado se tornou um dos principais desafios da educação inclusiva no município.
Em março, Bruna denunciou a falta de um profissional ao Ministério Público. Um mês depois, a Secretaria de Educação disponibilizou um monitor para acompanhar o estudante. Conforme a mãe, a demora prejudicou a evolução da criança.
— Mesmo que esse profissional começou no início de abril, até ele conseguir se adaptar, já foram mais 30 dias. Foram dois meses e meio de aula que o Matteo teve para se readaptar em algo que não era um problema para ele — destaca.
Matteo não é a única criança a ter dificuldades em conseguir um monitor de apoio. De acordo com a presidente da Auma, Salua Younes, o número de profissionais nem sempre consegue atender as necessidades básicas dos alunos no dia a dia.
É o caso do adolescente Estevan Xavier, 13 anos. Aluno da Escola Estadual de Educação Básica Nicolau de Araújo Vergueiro (Eenav), o menino é diagnosticado com TEA nível 2, e, desde 2021, conta com monitor em sala de aula.
A 7ª CRE disponibilizou o profissional depois que a mãe, Raquel Alves, denunciou a situação ao Ministério Público. Ela conta que o profissional de apoio melhorou a qualidade de ensino e convivência do adolescente, além de tranquilizar a mãe.
— Já escutei de profissionais dentro da escola que meu filho é um privilegiado em ter uma professora de apoio enquanto tem mais de 30 alunos ali que não tem. Não, meu filho não é privilegiado, eu busquei informações e fui atrás do direito dele — destaca.
Garantia de atendimento
A lei nº 15.131/2025 garante à pessoa com TEA o direito a um acompanhante especializado em casos de comprovada necessidade, mas não estabelece que cada criança precise de um monitor individual. Na prática, espera-se que esse acompanhante auxilie a criança com autismo nas tarefas, mobilidade, higiene, alimentação e em caso de desregulação comportamental, explica Salua:
— Nós temos o ideal e nós temos o real. O ideal é um monitor por autista. Mesmo assim, temos um monitor para três, às vezes cinco (crianças), numa sala de aula — afirma.
A Secretaria Municipal de Educação afirma que, atualmente, há 75 estagiários e 301 profissionais de apoio disponíveis nas escolas. Segundo o município, o acesso ao atendimento especializado acontece a partir da identificação das necessidades educacionais do estudante pelos pais ou pela escola. Em tese, a família não precisa realizar um pedido isolado para garantir o atendimento.
O secretário municipal de educação, Adriano Teixeira afirma que não há crianças sem monitores na rede municipal.
— Nós temos seguido à risca a nova legislação que trata da monitoria e podemos dizer que, a partir dessas novas regras, nós não temos nenhuma criança que demanda monitoria sem monitores — afirma.
O secretário defende ainda que é preciso estimular a independência dos estudantes com TEA.
— Se nós não entendermos que não são todas as crianças que precisam de monitoria individual, a gente vai ir na contramão de uma área que tem crescido muito nos estudos e que preconiza o aumento da autonomia dessas crianças — destaca.
Ainda conforme dados da prefeitura, o número de estudantes com autismo foi o que mais cresceu entre os alunos da Educação Especial no último ano em Passo Fundo. Foram 163 novos matriculados com o diagnóstico em 2026, um aumento de 28% em relação ao ano passado.
No caso de alunos das escolas estaduais, a coordenadora da 7ª CRE, Carine Weber, disse que não há necessidades apontadas não supridas no momento. Dados da Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul (Seduc) informam que, em Passo Fundo, 331 estudantes estão matriculados na Educação Especial da rede estadual. Entre eles, 120 alunos são diagnosticados com TEA. Para atender esses alunos, as escolas estaduais do município possuem 26 professores e 21 assistentes especializados.
Instituição oferece atendimento especializado para estudantes com TEA
Além das atividades na escola regular, alunos com TEA níveis 2 e 3 da rede municipal podem frequentar a Escola de Autistas Professora Olga Caetano Dias. Encaminhados pela Secretaria de Educação, eles participam de atividades de alfabetização e socialização no contraturno escolar.
Já a rede estadual não possui uma instituição específica para jovens e adultos com autismo em Passo Fundo. Em 2025, a Auma solicitou ao governo do Estado a criação de um Centro de Desenvolvimento Educacional voltado a esse público.
Em resposta, a Seduc informou que segue a política de educação inclusiva, que prevê o atendimento de estudantes com TEA na rede regular de ensino.com TEA na rede regular de ensino.
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Fonte:
GZH Passo Fundo
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