Tão importante quanto aquilo que escolhemos é aquilo que decidimos deixar de lado. Quando anunciado, o filme que promete narrar o desfecho de um dos personagens mais marcantes da cultura pop recente já carregava, por si só, a expectativa de sucesso. Após quase uma década de construção narrativa (2013 a 2022), parecia inevitável imaginar que o resultado não seria de qualidade.
A série sempre se destacou pelo cuidado com os detalhes e pela força de seus argumentos, conduzindo o espectador a acreditar que aquela história só poderia culminar em algo à altura de sua trajetória. No entanto, o filme não sustenta essa promessa. Pelo contrário, divaga por caminhos abertos.
Para quem acompanha as entrevistas de Cillian Murphy, é evidente o quanto o papel exigiu e desgastou o ator — algo que, de fato, se reflete em tela. Ainda assim, o problema não está na entrega individual, mas nas escolhas estruturais da obra.
Entre os pontos mais frágeis está a ausência de Arthur Shelby, personagem fundamental para a dinâmica e tensão da narrativa. Sua falta compromete o equilíbrio da história e evidencia um roteiro apressado, que parece abrir mão da construção gradual em favor de uma resolução acelerada. Essa pressa priva o espectador daquilo que a série sempre fez melhor: a imersão catártica que só um gênero assim propicia.
De maneira geral, o filme sofre de um problema comum em adaptações: um certo “achatamento” narrativo, como se uma obra rica e complexa fosse condensada de forma simplificada demais — algo incompatível com a densidade que consagrou a série.