Nesta segunda-feira, o Brasil completa 204 anos de Independência
Em 7 de setembro de 1822, às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, Dom Pedro I proclamou a separação do Brasil de Portugal. O episódio entrou para a história acompanhado de uma frase que atravessou gerações: “Independência ou Morte!”
Duzentos e quatro anos depois, talvez seja oportuno perguntar: de que independência estamos falando?
Porque, olhando para algumas das características do Brasil de hoje, às vezes parece que caminhamos perigosamente em direção à segunda opção.
Não à morte física de uma nação, evidentemente. Mas à morte silenciosa de alguns dos valores que deveriam sustentar uma sociedade livre. Morte da cultura. Morte da educação. Morte do respeito. Morte da segurança. Morte da liberdade.
E, quando falamos em liberdade, talvez seja necessário ir além do conceito escrito nos livros de História. Que povo pode ser considerado verdadeiramente livre quando precisa pensar duas vezes antes de dizer aquilo que pensa? Quando tem receio de se manifestar publicamente? Quando sair de casa, dependendo do lugar e da hora, significa calcular o risco de ser assaltado?
Que liberdade existe quando o cidadão honesto, que trabalha, paga impostos e cumpre a lei, muitas vezes sente que possui menos garantias do que aquele que decidiu ignorá-la? Que liberdade existe quando o direito à legítima defesa é tratado com desconfiança, enquanto o criminoso armado encontra meios para ameaçar justamente quem deveria estar protegido?
E há uma outra forma de prisão, menos visível, mas igualmente presente: a do cidadão que trabalha cada vez mais para conseguir manter uma vida minimamente digna.
O brasileiro trabalha, produz, empreende, enfrenta burocracia, paga contas e, antes mesmo de receber aquilo que ganhou, já deixou uma parcela considerável pelo caminho. Paga imposto para trabalhar, paga para receber, paga para consumir, paga para possuir bens. Paga quando compra, paga quando vende e paga novamente quando aquilo que conquistou passa para seus filhos. A tributação acompanha praticamente todos os movimentos da vida econômica do cidadão.
Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação, em 2026 o brasileiro precisa trabalhar, em média, 150 dias do ano somente para pagar impostos, taxas e contribuições. São 41,10% da renda anual.
Quase metade do ano.
É impossível não lembrar do chamado “Quinto dos Infernos”, como ficou conhecida a cobrança de 20% sobre o ouro extraído no Brasil colonial e enviado à Coroa Portuguesa. O nome carregava a revolta de uma população submetida à cobrança.
Hoje, considerando o cálculo do IBPT, a proporção é mais que o dobro daquele quinto. Não se trata, evidentemente, do mesmo sistema tributário nem de uma comparação histórica exata. Mas a referência ajuda a dimensionar o peso da tributação sobre quem trabalha.
E o problema não é simplesmente pagar impostos.
Uma sociedade organizada precisa arrecadar recursos para financiar saúde, educação, segurança, infraestrutura e uma série de serviços públicos.
A questão é outra: quanto o cidadão entrega e quanto recebe de volta?
Em 2025, a carga tributária bruta do país chegou a 32,40% do Produto Interno Bruto, segundo o Tesouro Nacional. Foi o maior nível da série histórica iniciada em 2010.
O Impostômetro contabiliza diariamente a arrecadação de tributos federais, estaduais e municipais.
A conta é gigantesca.
Trilhões de reais.
E, diante de tamanha arrecadação, é legítimo perguntar por que ainda convivemos com estradas em condições precárias, serviços públicos que não funcionam como deveriam, burocracia excessiva, insegurança e tantas outras dificuldades que fazem parte da rotina de quem simplesmente quer viver, trabalhar e criar os filhos em paz.
Talvez independência também seja isso.
É poder caminhar pelas ruas sem medo. É poder trabalhar e ter a sensação de que o fruto do próprio esforço não será consumido por um Estado cada vez mais pesado. É poder empreender sem ser sufocado por regras e impostos. É poder educar os filhos segundo os valores que uma família considera importantes. É poder falar, discordar, questionar e participar da vida pública sem medo. É ter segurança para defender aquilo que é seu dentro dos limites da lei. É ter um Estado que cumpra sua função sem transformar o cidadão em dependente permanente dele.
E talvez exista uma independência ainda mais importante: a independência intelectual.
Um povo que não conhece sua história pode ser facilmente conduzido por quem conta essa história por ele.
Por isso, o 7 de Setembro não deveria ser apenas uma data para hastear a bandeira, cantar o Hino Nacional e assistir a um desfile. Tudo isso é importante. Mas patriotismo não pode ser apenas cerimônia.
Amar o Brasil também significa conhecer sua história, respeitar seus símbolos, valorizar suas tradições, ensinar às crianças o significado da nossa bandeira e do nosso Hino e compreender que uma nação é construída muito além dos governos que passam por ela.
O Brasil é maior do que qualquer presidente. Maior do que qualquer partido. Maior do que qualquer ideologia. Maior, inclusive, do que aqueles que hoje ocupam posições de poder e, eventualmente, acreditam que o país lhes pertence.
O Brasil não pertence a quem governa; pertence aos brasileiros.
E talvez seja justamente por isso que o 7 de Setembro continue sendo uma data tão importante.
Porque independência não é um acontecimento que terminou em 1822. É um valor que precisa ser preservado.
Precisamos ensinar nossas crianças a amar o Brasil, mas também precisamos ensiná-las a querer um Brasil melhor. Precisamos cultivar patriotismo, mas sem confundi-lo com submissão. Precisamos respeitar as instituições, mas sem abrir mão do direito de questioná-las. Precisamos reconhecer os avanços do país, mas sem aceitar como inevitáveis os problemas que podem ser corrigidos.
Precisamos, enfim, compreender que liberdade não é apenas uma palavra bonita inscrita em discursos. Liberdade exige responsabilidade, coragem e disposição para não aceitar como normal aquilo que não deveria ser.
Talvez esta seja a reflexão que o 7 de Setembro deveria nos deixar.
Há 204 anos, o Brasil declarou sua independência.
Agora, talvez seja hora de perguntar se estamos fazendo o suficiente para continuar sendo independentes.
E que esta data sirva não apenas para lembrar o passado, mas para despertar em cada brasileiro a disposição de construir um futuro à altura do país que temos — e, principalmente, do país que ainda podemos ser.
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