29 abril 2021 | 09h31
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Cidades de SC determinam cortes e outras medidas contra árvore com flor que pode intoxicar abelhas

A Espatódea (Sphatodea campanulata) é uma planta de origem africana, que foi introduzida no Brasil como árvore ornamental e integra o paisagismo de muitas cidades de Santa Catarina. No entanto, uma substância nas flores tem ação inseticida e pode ser tóxica para abelhas, principais polinizadoras da natureza, e pássaros. Apesar da lei estadual que proíbe a produção de mudas e plantio, alguns municípios estão fechando o cerco à espécie, com medidas que determinam cortes e substituições por árvores nativas.

Desde janeiro de 2019, por conta da Lei Estadual nº 17.694, está proibida a produção de mudas e o plantio desta árvore em todo território catarinense. O infrator que descumprir a lei poderá pagar multa, no valor de R$ 1 mil por planta ou muda produzida, a ser aplicada em dobro no caso de reincidência. O projeto foi proposto em 2018 tendo como justificativa que a espécie é alvo de preocupação para os apicultores e melinicultores.

No entanto, ao menos dois municípios, que ficam na Grande Florianópolis e no Sul catarinense, tinham legislação própria antes da determinação estadual. Depois que a lei catarinense entrou em vigor, oito municípios do Vale do Itajaí, Sul e Norte do estado, publicaram no Diário Oficial regras que envolvem a planta. Em Indaial e Pomerode, no Vale do Itajaí, há autorização de corte e poda da árvore.

A pauta mais recente está em tramitação na Câmara dos Vereadores de Joinville, no Norte do Estado. O vereador Adilson Girardi (MDB) propôs o projeto de lei para poder modificar o Código Municipal do Meio Ambiente. Diferentemente dos outros municípios, a proposta quer restrições para outras espécies.

Segundo a engenheira florestal Sílvia Ziller, fundadora e diretora executiva do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental, não há um levantamento da quantidade de árvores no Brasil, nem registro de invasão biológica desta espécie no país, que é invasora agressiva em diversas ilhas, como no Havaí, Fiji e na Polinésia Francesa, e em florestas tropicais.

Para Sílvia, as determinações de restrições discutidas em leis para uso de espatódea deveriam também contemplar as árvores de espécies "exóticas invasoras" listadas pelo Instituto do Meio Ambiente (IMA).

"Deveria cobrir as espécies reconhecidas como invasoras, não só a espatódea. Até porque, pelo ponto de vista da invasão biológica, a espatódea não é uma das espécies que nos preocupa mais. Tem outras que são muito mais agressivas aos ambientes naturais, com impactos no consumo de água ou na alteração das comunidades locais. Por exemplo, elas acabam expulsando espécies nativas e isso prejudica não só as plantas, mas os animais que se alimentam dessas plantas e dependem desses ecossistemas naturais para abrigo, para lugares de reprodução e alimentos", afirma.

Sobre a espatódea

Segundo a bióloga Luciane da Rocha, professora de Engenharia Ambiental e Sanitária e do Colégio de Aplicação da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), a espatódea adulta tem diâmetro médio do tronco entre 30 e 50 centímetros, pode atingir até 25 a 30 metros de altura e a floração ocorre por volta dos 4 anos. A planta tem pelo menos outros quatro nomes populares:

Bisnagueira

Tulipeira-do-Gabão

Xixi-de-macaco

Chama-da-Floresta

A árvore possui inflorescência, que é o conjunto de flores que surgem na terminação dos ramos. As flores com formato de tulipa, de coloração avermelhada, chamam atenção pela beleza.

"As inflorescências possuem botões numerosos que com aberturas sucessivas garantem uma longa floração. Por isso a espécie possui um forte apelo paisagístico. É uma planta intolerante à sombra e pode durar 80 anos ou mais, se mantida em locais abertos e ensolarados, por isso o sucesso adaptativo em centros urbanos", explica Luciane.

Segundo o professor João de Deus Medeiros, do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o néctar produzido pelos botões florais da Espatódea pode ter efeitos tóxicos para insetos, entre formigas e abelhas nativas, e até mesmo para pequenas aves, como beija-flores.

"O néctar produzido nas flores contém proteínas com ação inseticida. Além dessas proteínas, alguns terpenos, carboidratos acetilados e esteróides também estão presentes nas secreções das flores, podendo afetar insetos. Também há registro na literatura científica da produção de alcalóides, que podem ser tóxicos para beija-flores", afirma o professor.

De acordo com o professor, a mucilagem é um composto complexo de polissacarídeo e proteínas, que funciona como uma armadilha.

"É uma substância açucarada de consistência gelatinosa. Como é uma substância pegajosa, muitos insetos ficam aprisionados no interior da flor", disse Medeiros.

Além disso, a abelha contaminada poderá levar o produto para a colmeia e podem alterar o processo de confecção das ceras nos favos. "Em relação à qualidade do mel, ainda não existem estudos conclusivos", afirma a bióloga Luciane.

Impactos a longo prazo e produção de mel

Santa Catarina ocupa normalmente todos os anos o terceiro ou quarto maior produtor de mel do Brasil e se destaca também entre os maiores exportadores. O chefe da divisão de estudos apícolas da Epagri, Rodrigo Durieux da Cunha, explica que os cortes da espatódea podem trazer benefícios tanto para famílias que tem meliponicultura como fonte de renda, a fauna e flora do local.

"O que se observa mais e os relatos maiores de problemas com mortalidade de abelhas devido a espatódea são relacionados à abelha sem ferrão, até pelos ambientes urbanos e periurbanos, onde tem a maior concentração dessas árvores. O mel de abelha sem ferrão, apesar de ter um grande potencial, ainda não tem grande expressão na comercialização. Hoje o produto principal da criação de abelhas sem ferrão é a comercialização das colônias e também tem um valor ambiental imensurável", afirma.

Para Fabiana Barros, presidente fundadora da Associação de Meliponicultores (AME) de Blumenau, proprietária do Meliponário Família Abelha, representante regional da Federação de Apicultura e Meliponicultura de Santa Catarina (Faasc), as medidas restritivas são necessárias para aumentar a proteção das abelhas nativas brasileiras.

"Muitas vezes, não é pensado quando se introduz uma planta exótica como a espatódea, podemos exemplificar o Neem, que são altamente prejudiciais aos polinizadores em geral. Há um receio de se retirar por serem árvores frondosas que proporcionam sombra boa e bonitas quando floridas. Mas é exatamente por serem assim que são prejudiciais, pois florescem quando há escassez de outras floradas, fazendo com que as abelhas e outros polinizadores a procurem. Não podendo fazer a supressão delas, por algum motivo de força maior, estamos recomendando sua poda antes da floração", disse.

Segundo o professor de zoologia da Universidade Regional de Blumenau (Furb) e meliponicultor Sérgio Luiz Althoff, as leis são muito recentes e ainda há poucos estudos que citam efeitos práticos da eliminação dessa espécie de árvore e os reflexos no aumento da população das abelhas.

"Infelizmente, em nosso estado, estudos sobre a dinâmica natural de abelhas nativas são muito raros. Porém, sabendo dos efeitos tóxicos desta planta, a inexistência destes estudos não invalida a importância destas leis.

O mais importante é não só pensar apenas nas atividades econômicas, mas principalmente analisar que na eliminação desta planta que não é nossa (exótica), estamos salvando animais de nossa biodiversidade", disse.

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Fonte:

G1

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