Disputa interna pelo cacicado, confronto com a Brigada Militar, prisão e morte de um bebê marcaram a sequência de ocorrências na terça-feira
Uma sequência de confrontos nessa terça-feira (13) deixou três homens mortos na Terra Indígena de Votouro, localizada entre Benjamin Constant do Sul e Faxinalzinho. A ocorrência envolveu grupos indígenas rivais e, na seguida, confrontos com equipes do Batalhão de Choque da Brigada Militar. Um homem foi preso, armas foram apreendidas e outras pessoas ficaram feridas.
As informações apontam que o episódio começou ainda durante a madrugada e se agravou ao longo da manhã. A Polícia Federal foi acionada para investigar o caso.
Motivação do conflito
Segundo o comandante do 13º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Maurício Paraboni Detoni, o confronto teria sido motivado por divergências políticas internas na comunidade, relacionadas à liderança do cacicado. De acordo com o comandante, um dos grupos está ligado à atual liderança, enquanto o outro reúne indígenas descontentes com a administração. A Brigada Militar tentou intermediar uma negociação durante a madrugada, mas não houve acordo. A situação evoluiu para confrontos com pedras e pedaços de madeira.
A primeira morte ocorreu por volta das 5h30min, depois que as equipes policiais deixaram a área. Um homem indígena, identificado como Alexandro Brandino, de 25 anos, foi atingido por dois disparos e morreu após ser socorrido.
As circunstâncias exatas do caso ainda devem ser esclarecidas pela investigação.
Outras duas mortes
Por volta das 11h30min, o Batalhão de Choque da Brigada Militar voltou a intervir na área. Conforme o comandante da corporação, integrantes do grupo de oposição avançavam em direção ao cacicado portando armas.
Ainda segundo a Brigada Militar, houve disparos contra os policiais, que reagiram. Dois homens indígenas morreram durante o confronto. Eles foram identificados como Silvano Domingos Candoia, de 30 anos, e Alvaro Ferreira, de 37 anos.
A corporação estima que cerca de 70 pessoas participaram dos confrontos, divididas entre os dois grupos.
Prisão e apreensão de armas
Durante a atuação policial, um homem indígena foi preso. Também foram apreendidos dois revólveres, duas espingardas calibre 12 e munições. Outros envolvidos teriam fugido em direção a áreas de mata próximas à comunidade.
A Polícia Federal foi acionada para apurar as circunstâncias das mortes e dos confrontos.
Confronto pode ter outras vítimas
Além dos três homens mortos, houve outros registros de ferimentos durante a ocorrência. Um motorista não indígena que trabalhava na área foi atingido por disparos e encaminhado ao Hospital Santa Terezinha, em Erechim. Ele recebeu atendimento e teve alta hospitalar.
Uma criança também precisou de atendimento depois de pisar em cacos de vidro durante o conflito.
Outro episódio foi o de uma mulher indígena grávida que entrou em trabalho de parto durante a situação de violência. Segundo o comandante da Brigada Militar, ela teria sido impedida de deixar o território, e o bebê não resistiu até a chegada ao hospital.
Segundo a Brigada Militar, ao menos 15 pessoas ficaram feridas.
Histórico de conflitos
A região de Votouro e Kandóia tem histórico de tensões relacionadas à ocupação e à demarcação de terras indígenas. Esse contexto, porém, é diferente da motivação política interna dessa terça-feira.
Registros históricos reunidos pelo Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), descrevem mobilizações e disputas territoriais entre indígenas Kaingang, agricultores e moradores da região desde o início dos anos 2000.
Em agosto de 2002, moradores de Faxinalzinho bloquearam uma rodovia em protesto relacionado a reivindicações territoriais indígenas. Em 2003, também houve manifestações e bloqueios de vias durante a discussão sobre a delimitação da Terra Indígena Votouro/Kandóia.
Um dos episódios mais graves ocorreu em 28 de abril de 2014, quando os agricultores Alcemar Batista de Souza e Anderson de Souza foram mortos durante um conflito em Faxinalzinho, em meio a manifestações relacionadas à questão territorial.
Área tem cerca de três mil hectares
A área tem aproximadamente três mil hectares, distribuídos principalmente em Benjamin Constant do Sul, com uma pequena porção em Faxinalzinho. O território é habitado por indígenas das etnias Kaingang e Guarani.
Jornalismo Rádio Tapejara
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